domingo, 8 de novembro de 2009

Transcender o ego



Por Ana Marques

Como saber se transcendemos o ego?
Se o superamos?

O processo é longo, trabalhoso. Requer mais que dedicação, requer imersão.

Mergulhar na necessidade de ir além.
De vivenciar além e voltar...
pra casa.

Que casa?
A casa onde está a sua essência divina. A essência que faz de você quem realmente é e não o que a sociedade fez de você.

Vou ilustrar com o mito da bruxaria, retirado do livro "Bruxaria Hoje" de Gerald Gardner.

"G. nunca amou, mas ela resolve todos os mistérios, mesmo o mistério da Morte, e assim viajou às terras baixas. Os guardiões dos portais a desafiaram. 'Despe teus trajes, tira tuas jóias, pois nada disso podes trazer contigo em nossa terra.' Assim, ela pôs de lado seus trajes e suas jóias e foi amarrada como o eram todos os que entravam nos reinos da Morte, a poderosa.
Tal era sua beleza que a própria Morte se ajoelhou e beijou seus pés, dizendo: 'Abençoados sejam esses pés que te trouxeram por estes caminhos. Permanece comigo, mas deixa-me pôr minha mão fria sobre teu coração'. E ela respondeu: 'Eu não te amo. Por que fazes com que todas as coisas que amo e que me alegram se apaguem e morram?' 'Dama,' respondeu a morte, 'isto é a idade e o destino, contra os quais não sou de nenhuma ajuda. A idade faz com que todas as coisas feneçam; mas, quando o homem morre ao fim de seu tempo, eu lhe dou descanso e paz e força para que ele possa retornar. Mas tu és adorável. Não retornes; permanece comigo.' Mas ela respondeu: 'Eu não te amo'. Então a Morte disse: 'Como não recebes minha mão em teu coração, receberás o açoite da Morte'. 'Esse é o destino, que seja cumprido,' disse ela, ajoelhando-se. A Morte açoitou-a e ela gritou: 'Conheço os sofrimentos do amor'. E a morte disse: 'Abençoada sejas' e lhe deu o beijo quíntuplo, dizendo: 'Que possas atingir a felicidade e o conhecimento'.
E ela lhe contou todos os mistérios e eles se amaram e se tornaram um; e ela lhe ensinou todas as magias. Por isso, há três grandes eventos na vida do homem - amor, morte e renascimento no novo corpo - e a magia os controla a todos. Para realizar o amor, você deve retornar na mesma época e lugar que os entes amados e deve lembrar-se e amá-lo ou amá-la novamente. Mas, para renascer, você deve morrer e ficar pronto para um novo corpo; para morrer, você deve ter nascido; sem amor você não pode nascer e eis toda a magia."


A Deusa, ao chegar aos portais da Morte, se desfez de todos os seus trajes e suas jóias.
Ou seja, se desfez de tudo que a definia e classificava.

Retire seus trajes e suas jóias.
Dispense seu nome, sua profissão, sua ascendência e sua descendência, seus amigos, seus companheiros.
Abra mão de todas as classificações.
Retire as qualidades com que o classificam.

Fique nu diante de si mesmo e responda-me:

Quem é você?
Sem rótulos que usa para se reconhecer... quem é você?

O que vê sobre si quando não é mais mãe, pai, esposa, marido, namorada, analista de sistemas, amigo de fulano ou sicrano, professor, pintor, desenhista, administrador, advogado, detalhista, ocupado, militante, irritado, irônico, amável...


Quem é você?
Se você não se apóia nas próprias definições de si, sabe quem é?

Se não sabe, está preso ao ego.
Não transcendeu nada.

Pode estar nos portais da Morte, todo vestido, sem saber como abrir mão de sua máscara social.
Pode estar diante de si mesmo no espelho fingindo que sabe quem é.

Pode estar enganando a si mesmo.

Eu estou nos portais.
Estou olhando além deles, para o momento em que tirarei as vestes e as jóias e descobrirei quem sou.

Onde você está?



6 comentários:

S. Thot disse...

Esse tipo de pergunta a gente se faz quando está em um processo de perda, como a própria Deusa estava.

Mas em processo assim, diferentemente da própria Deusa, nos drogamos ou, na impossibilidade disso, apenas choramingamos ao invés de aproveitar este momento da-gente-com-a-gente-mesmo.

As mulheres, acredito, vivem este período a cada vez que menstruam. Mergulham em si mesmas, deixam cair sua máscara social e riem e choram e esbravejam quando tem que rir, chorar ou esbravejar. Deve ser por isso que as tememos quando menstruam. Rs!

Para nós, homens, a doença é um temor, e me vem na cabeça um comercial do governo incentivando os homens a buscarem o médico pois a taxa de óbitos entre a nossa população é maior do que na feminina. Mas a doença, o desemprego, a morte são mergulhos. E não somos treinados para enxergar assim na Noite Escura.

Fabiane Bianchi disse...

Oi Ana,

Gostei do seu texto e ele é bem pertinente.
Eu discordo um pouco sobre a necessidade humana de transcendência do ego, para o reconhecimento de si mesmo.
Ao meu ver, ego sou eu, a máscara sou eu, o id sou eu, e tudo isso junto, mais tudo o que nos cerca é Ela.
Eu não creio na transcendência do ego, creio na consciência do Ser.
E é desta forma que encaro a descida: ao despojar-se dos itens que lhe davam o status de poder, para mim, ela livrara-se de sua ignorância de si mesma. Ela tornou-se cônscia de mais uma parcela de seu poder, o que não significa que os itens que ficaram nos portais, não fossem também uma parcela deste poder.
Tanto o eram, que na subida, ela recebe de volta estes itens, porém, somados à consciência modificada dela mesma, que a fariam a partir de então, plena de si mesma.

Mas o fato é que, ao chamarmos de consciência ou de ego, muito pouco estamos mudando, pois o que importa realmente é Sabermos, como todos os nossos sentidos, sentimentos e sensações, quem realmente Somos.


bb
3c

Persephone disse...

Circe,
Tenho uma visão diferente da sua... :)
Na concepção que tratei o Ego é igual a Persona, ou seja, uma (ou várias) máscara social. É uma casca. Usando o paralelo da descida, a Deusa se livra das máscaras que são necessárias para se viver em sociedade, mas aquilo não é ela, ela é a essência, o que se descobre após se desnudar e receber o açoite da Morte.
Mas concordo contigo, ela volta modificada, volta Consciente. Inclusive, consciente de que ela é ELA, mesmo que não se vista com as belas vestes ou brilhe em suas jóias.

E para mim, saber onde termino EU e começa a Persona, é crucial no desenvolvimento do caminho.

BB

Persephone disse...

S.Thot,

Achei bastante interessante a sua colocação.

Se puder e quiser, responda para mim, na sua visão, para o homem (sexo masculino) é mais difícil mergulhar e sair da Noite Escura do que para a mulher?

bençãos de estrelas.

Beto disse...

Olá, Ana e Persephone.
O texto é muito bom e as questões contituem em um mistério e são o cerne do mito.
O mito tem tantas formas de ser visto ou lido e vivenciado que não caberia em um comentário.
Em uma vivência onde se põe muito enfoque na Deusa, o mito é om contraste, uma contradição e nos desafia a encontrar nosso verdadeiro Eu.

S. Thot disse...

Ah, um exemplo de Noite Escura e nosso temor chama-se Desemprego. Ao menos para os que tem que sustentar família!

Só fiquei desempregado na vida três vezes em quase 20 anos. E é estressante porque o mundo inteiro se fecha para nós homens. Precisamos "nos virar". E uns fazem isso melhor que outros.

Particularmente as diversas modalidades de Noites Escuras (desemprego, doença, incapacidade física momentânea ou permanente, doença, velhice) me aterrorizam porque, diferente das mulheres, me calo. Reclamar, chorar, desabafar não são opções.