domingo, 14 de setembro de 2008

Eu e o Espelho


Tenho me buscado no espelho.

Não a minha imagem, falsa visão de minha emoção refletida no vidro. Mas meus olhos.

Olho para eles, lá no fundo e me busco.
Quem sou eu que me fita no fundo plácido dos meus olhos?
Quem sou eu que repousa no eterno brilho de um túnel sem fim?
Olho e busco.

Quem está lá?
Quem está aí?
Quem está aqui?

Posso vislumbrar a criança que fui. Vejo a menina que escalava o muro para mostrar os pontos que tinha levado na testa, pontos que levou exatamente por cair daquele mesmo muro. Posso notar uma réstia da garotinha que desafiava a todos e se escondeu no parque para andar na montanha russa. Posso ter uma leve intuição da mocinha que queria viver para escrever.

Onde tudo isso foi parar, deuses meus... respondam!

Mostrem-me em que momento eu afundei nas máscaras?

Em que momento eu caí na armadilha de tentar sempre agradar, sempre ser legal, sempre ouvir elogios?

Eu sei, eu caí.
Eu sei que me perdi.

Mas sei que busco no espelho o brilho que iluminará a estrada que me levará de volta para mim.

Mas... quem não se perde?

Todos somos condicionados a esquecer quem somos e assumirmos papéis que não nos cabem para satisfazermos a sociedade na qual nascemos.

Todos, sem exceção, somos domesticados pelo sistema. Somos bloqueados em nossas mais profundas aspirações, sentimentos e características pessoais.

A persona, para que possamos nos adequar de alguma forma, toma à frente da nossa consciência. Ela se torna um reflexo do que somos, e acreditamos que ela somos nós. Esquecemos a criança, ignoramos o adolescente, abdicamos do bebê. Nossas características antigas, perdidas em fotos, nos parecem bobas, ridículas, engraçadas.

Não nos reconhecemos nelas.
Porque não nos conhecemos mais.

A volta é um processo de auto-conhecimento, de busca, de interiorização que exige, primeiramente, que se admita a perda sofrida. É preciso ouvir nossa criança chorar, para que possamos nos guiar por seu som e encontrar onde ela está sozinha nos esperando resgatá-la.

...

Volto a olhar no espelho.
Volto a fitar os meus olhos.
Numa luz no fim do túnel castanho, eu vejo a esperança pairar.

Buscando minhas lembranças, encontrarei a mim mesma?

Encontrando a mim, terei coragem de abdicar de anos de condicionamento para viver quem eu realmente sou?

Vivendo a mim e em mim, poderão os outros compreender que esta é que sou eu? Ou até mesmo ainda me importar com isso, é apenas um reflexo do condicionamento ao qual ainda estou atada?