terça-feira, 29 de julho de 2008

O medo, em todos nós.

Fotografia por Amy Guip


texto por Ana Marques



A noite morre devagar... sombras por todos os lados e o medo, escondido em cada uma delas.



O medo se insinua sem que percebamos realmente.



E se espalha.



Está debaixo da cama, atrás da porta, no brilho dos olhos que pode se apagar, no pio noturno da coruja, no arrepio inesperado, no rápido bater das pálpebras, entre uma e outra batida do coração.



O medo está lá.



Pequeno, não. O medo jamais é pequeno.



E é sempre invasivo.



Seu cheiro invade nossas narinas e nos paralisa.



O frear de um carro, o fundo da piscina, o apagar das luzes, a pergunta inesperada.



O medo. O desconhecido. As limitações.



O medo limita. Encobre. Esconde.

Nos impede de viver, de aceitar, de crescer.

O medo da morte, cria o medo da vida.

O medo do escuro, cria o medo da luz.

O medo impede.



Não se vive com medo.



Porque o medo nos faz reféns, e com ele, a vida se passa atrás das grades.



Quantas perdas pelo medo?

O medo de amar, de querer, de conseguir?

O medo de ir em frente, de arriscar, de fracassar?

O medo de ser para sempre ou nunca mais?

E acuados pelo medo, vivemos dentro de um quadrado do que podemos fazer, sem nos arriscar.



Por mais que tenhamos apenas um medinho à toa... ele está ali, como um guarda, a nos vigiar, a nos impedir, a nos limitar.



Não?



Ah sim... o medo não limita, não é mesmo? O medo nos avisa do perigo?



Claro, o medo de nadar não impede ninguém de apreciar as profundezas, não é mesmo?



O medo de altura não impede ninguém de ver a magnitude dos abismos sem fim?

O medo de falar em público não impede ninguém de se expressar para os outros, não é?

O medo de ser ridicularizado não impede ninguém de assumir suas excentricidades e viver de forma mais verdadeira?



Tudo isso, acima, é apenas divagação.



Não é?



Ou não?



Olhe para si novamente. Olhe para dentro: qual a cor do seu medo? Qual a força do seu medo? Qual a amplitude do seu medo?



Veja a real força que dá a ele.

Veja tudo que deixa de fazer, porque seu medo criou cercas para você.

Veja tudo que está fora do seu alcance, não por sua escolha, mas por seus receios?



Veja, reconheça, diga "olá!" e mande embora.

Veja, reconheça, diga "VÁ!" e mande embora.



Diga isso, todos os dias, todas as noites, e enfrente-o.



Não o deixe te consumir.



Consuma-o você.

Transforme-o.

Transmute-o.



Todos os dias, até que ele se vá. Um por um dos seus medos, dos limites escondidos nas sombras. Jogue luz sobre ele e veja-o queimar a si mesmo.



Deixe o dia amanhece devagar...



... as sombras continuarão lá, mas o medo, não.





PS: Para quem quer saber mais de seu medo, faça o seguinte teste: http://somostodosum.ig.com.br/testes/cordomedo/. Vocês podem se surpreender.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Tens medo do quê?

Fotografia por Claudia Kunin


Texto por Ana Marques



Todos temos medo.



Medo de nos envolvermos demais. De menos. De nos apegarmos a alguém, ou nunca nos apegarmos a ninguém. Medo de sofrer, da dor, do sentimento, do amor.



Todos temos medo.



Que seja da nossa sombra, daquilo que nos assombra. Do nosso reflexo no espelho. Do sabonete que cai no chão do banheiro. De ver refletido os fantasmas, mulheres de cabelo na cara.



Quem aqui tem medo do O Grito? Ou do O Chamado?



E quem tem medo do próprio grito? Ou daquele sussuro suave que é um chamado?



Quem tem de Virgína Wolf? Deveriam, ela falava das acomodações e dos sentimentos interiores, de quem nem parecia ter sentimentos interiores.



Vocês tem medo de Clarice Lispector e sua dor rígida, sua clareza ímpar, seu sentimentalismo certeiro?



Quem tem medo do claro, do escuro, do abismo, do muro? Quem teme aquilo que desconhece? E aquilo que finge que conhece? Tens medo também?



Quem aqui teme a vida? Quem teme ser indigna, mal falada, desconhecida, ignorada ou debochada? Quem teme ser esquecida?



Quem teme a crítica alheia, o perdão que nos torna feia, a piscina rasa, o copo meio vazio... que podia estar meio cheio. Cheio de veneno, talvez?



Vamos, falemos de temores. Falemos de medos, pesadelos e receios.



Todos temos!



Todos, absolutamente todos temos medo.



A questão é descobrir o que nos faz acordar a noite, suados e com frio. O que nos faz o coração bater em taquicardia, em total agonia. O que nos faz parar durante o dia, como se um sopro de morte, nos tomasse em vida...



Conte-me. Conte-nos. Conte-se.



Tens medo do que?

domingo, 27 de julho de 2008

Senhora!

Imagem por Custom GraphXX / fonte: http://www.customgraphxx.com/
Para Tiamat
poema de Ana Marques




Ouve, Senhora, meu apelo!
Minha ordem, minha súplica, meu desejo.
Crie em mim a sua força,
me recria e me destroça.
Abre o meu peito e ouve o lamento.
O som do animal que não enfrento
que deseja sair de mim.




Ouve, Senhora, eu enlouqueço!
De sonhos, de vida, de anseios.
Eu vivo a sua terra
enquanto broto, meu peito encerra.
Eu não nasço, não morro, portanto...
presa sem rumo, no limbo:
eu não crio, não temo, nem rio.




Ouve, Senhora, eu reconheço!
Sua presença, sua insistência e o meu temor.
Abre meu peito, eu insisto!
Liberta a euforia, eu não resisto.
Quero brotar, morrer, sair do limbo:
criar, partir, temer e rir.




Ouve, Senhora, meu canto e festejo!
De amor, de dor, alegria enfim.
Abriste meu peito e dele voou
um dragão sem destino e meu destino traçou.
Agora eu broto, nasço e morro por fim.
Sem medo, não temo: viver e partir.

Tiamat

Imagem de Richard Nowitz



Poesia por Ana Marques

Nas garras de Tiamat
minha vida
encerra.



Nas asas de Tiamat
meu espírito
desperta.



No peito de Tiamat
o dragão que sou
destroça.



Na silêncio de Tiamat
a sabedoria interna
se mostra.



Na figura de Tiamat
eu renasço
e estou pronta.



Posso encerrar o que era humano
despertar o espírito dragão.
Na sabedoria desse silêncio
renascer na escuridão.

Sentir a Lua

fotografia por Philip J Brittan


Textos por Ana Marques



Noites e mais noites de lua.



Vejo a lua e lembro de como nos esquecemos de olhar para ela e sentir o que ela tem a nos dizer. Ficamos presas a receitas, rituais, feitiços, nomes de deuses lunares... e fazemos tudo isso dentro de casa, na frente do computador ou da estante de livros.



Mas a lua precisa ser sentida.



Então saiam a noite de casa, sentem no quintal, na varanda, na beirada da janela... Coloquem o corpo ou a cabeça para fora de casa. Apaguem as luzes e fiquem em silêncio. Apenas sintam a lua. Olhem para ela e tentem esquecer da conta, da luz, da água, da comida, do filho, do marido, do trabalho, dos deveres.



Esqueçam tudo. E sintam...



Olhem para ela e vejam.



Podem perceber as histórias e lendas que foram inspiradas em sua luz?

Podem ver os mitos que se desenharam através da sua face que sorri para nós?

Podem compreender os sonhos tecidos na teia que nos liga a ela e com a qual ela nos influencia?



Parem de buscar fórmulas.

Olhem para o céu e apenas vejam.



A Lua espera por nós pacientemente.

Sua magia está ali, para ser percebida, adivinhada, interiorizada.

Seu movimento movimenta nosso corpo.

Seu progresso influencia nossos atos.

Quando ela transborda, nós transbordamos.



Mas nos encontramos tão fora de eixo, tão esquecidas das percepções dos sentidos, que não nos damos conta da força que ela nos manda. Da força que mal aproveitamos.



Essa noite de lua, seja qual lua for, desliguem o computador por alguns minutos. Façam um chá e aproximem-se da lua. Conversem com ela e deixem que ela suspire no ouvido de cada uma de vocês os seus segredos.



Os segredos serão dela para cada um. Pessoais. Intransferíveis.



Serão magia pura.