domingo, 21 de novembro de 2010

Tens coragem?

imagem: Black Mirror


Por Ana Marques
Tens coragem de enfrentar
teu maior monstro
e ir além de si mesmo?



E tens vidas para sacrificar,
para olhar dentro do espelho
e ver em teu rosto
a maior piada
do que lhe vai por dentro?



Se enxergares tua essência
terás sanidade
para manteres a máscara
que não te traduz?



E consciente da mentira
saberás separar quem és
da máscara que utilizas
para arcar com a sociedade
que não o abandonará
jamais?



Parece um poema... mas acredite-me: não é!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Deus castiga?

Por Ana Marques





O menininho voltava da escola, cabisbaixo. Seu rosto refletia muita preocupação. Parou para falar com as flores de um jardim, como sua mãe o havia ensinado a fazer.

- Florzinhas, Deus castiga?
As florzinhas adoravam aquele sol doce da tarde e olharam sem entender a tristeza do garoto.
- Ah! Florzinhas... minha amiguinha na escola disse que Deus castiga se eu fizer coisa errada, se eu não rezar para ele de noite, se eu não fizer tudo que ele manda.

- Estou com medo desse Deus que castiga.

As florzinhas, compreensivas, balançaram suavemente para lá e para cá, mostrando que não.Mas o menino continuou com dúvidas.

Ele caminhou mais um pouco, viu árvores grandes, de cascas grossas e raízes profundas. Pensou que elas deveriam saber muito e resolveu conversar com elas, como seu pai havia ensinado.
- Árvore, você é grande, enxerga mais do que eu, responde: Deus castiga?
- Deus castiga se eu converso com você? Se meus pais são diferentes?
- Sabe, estou com medo desse Deus. Acho que ele tem raiva de mim.

A árvore, penalizada, balançou suavemente para lá e para cá, mostrando que não. Caíram folhas na cabeça do menino, mostrando que elas eram todas um pouco diferentes e todas podiam cair ou ficar na grande árvore.

Mas o menino continuou com dúvidas.

Ele caminhou mais um pouco e ao longe viu grandes nuvens escondendo e mostrando o sol. Estavam brincando de esconde-esconde! Não! Estavam formando desenhos! E ele resolveu conversar com as nuvens e com o sol, como sua madrinha o havia ensinado.

- Sol, você está no alto. Vê tudo, ilumina, e como a madrinha sempre me fala, faz com que tudo nasça. Sol, Deus castiga porque não sou cristão? Deus castiga porque eu não fui batizado?

- Nuvens, vocês passam, escondem o sol e o mostram de novo, formam desenhos bonitos e trazem chuva. Nuvens, Deus castiga porque eu não acredito nele desse jeito que minha amiguinha falou que ele é? Deus castiga porque colocamos chifres nele?

As nuvens docemente se movimentando para cá e para lá e o brilho do Sol diziam que não. O calor suave aumentou esquentando algumas partes e depois outras do corpo do menino. Ele percebeu que não haviam preferidos, que o sol tocava a todos sem distinção.

Mas o menino continuou com dúvidas.

E veio a bola, colorida e vibrante, rolando alegremente.
O menino a viu e olhou-a, esperançoso:

- Bolinha, Deus castiga? Deus castiga porque a gente acredita na Deusa?
A bola, quase indiferente, continuou rolando.
Rolou, rolou, rolou.

E o menino ouviu uma voz:
- Ei!
Ele se virou.Um outro garoto o fitava, rindo.
- Quer brincar com a gente?
O menininho pensou e respondeu:
- Quero!
- Então pega a bola! - respondeu o outro garoto.

O menino voltou os olhos para a bola e ela - debaixo daquele ameno sol de março fez coro com as nuvens, a árvore e as florzinhas - sorriu e respondeu silenciosamente para ele:
"Viu? Não existe castigo".

E o menino finalmente esqueceu as dúvidas, riu e correu para pegar a bola e fazer o que o unia a todas as outras crianças do mundo, pagãs ou não: BRINCAR!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Magia



Magia

A magia vive aqui.
Poderia entender?
Meus olhos seguindo o rastro
do círculo que se alastra
e recria um mundo
entre mundos.

A magia vivencia aqui
e eu espiralo em transe
o ser que transborda
a vida corrobora
e eu sou UNA
entre muitas.

A magia permeia aqui.
Poderia perceber?
Meu corpo extasia o torpor,
a coragem vivenciada em calor
e eu sou GRANDE
em meus Deuses

A magia integra aqui
e eu vivencio esse poder.
Sou parte, sou una, espiralada.
Sou resposta a este amor
e eu sou MAGIA
em meus Deuses.

domingo, 8 de novembro de 2009

Transcender o ego



Por Ana Marques

Como saber se transcendemos o ego?
Se o superamos?

O processo é longo, trabalhoso. Requer mais que dedicação, requer imersão.

Mergulhar na necessidade de ir além.
De vivenciar além e voltar...
pra casa.

Que casa?
A casa onde está a sua essência divina. A essência que faz de você quem realmente é e não o que a sociedade fez de você.

Vou ilustrar com o mito da bruxaria, retirado do livro "Bruxaria Hoje" de Gerald Gardner.

"G. nunca amou, mas ela resolve todos os mistérios, mesmo o mistério da Morte, e assim viajou às terras baixas. Os guardiões dos portais a desafiaram. 'Despe teus trajes, tira tuas jóias, pois nada disso podes trazer contigo em nossa terra.' Assim, ela pôs de lado seus trajes e suas jóias e foi amarrada como o eram todos os que entravam nos reinos da Morte, a poderosa.
Tal era sua beleza que a própria Morte se ajoelhou e beijou seus pés, dizendo: 'Abençoados sejam esses pés que te trouxeram por estes caminhos. Permanece comigo, mas deixa-me pôr minha mão fria sobre teu coração'. E ela respondeu: 'Eu não te amo. Por que fazes com que todas as coisas que amo e que me alegram se apaguem e morram?' 'Dama,' respondeu a morte, 'isto é a idade e o destino, contra os quais não sou de nenhuma ajuda. A idade faz com que todas as coisas feneçam; mas, quando o homem morre ao fim de seu tempo, eu lhe dou descanso e paz e força para que ele possa retornar. Mas tu és adorável. Não retornes; permanece comigo.' Mas ela respondeu: 'Eu não te amo'. Então a Morte disse: 'Como não recebes minha mão em teu coração, receberás o açoite da Morte'. 'Esse é o destino, que seja cumprido,' disse ela, ajoelhando-se. A Morte açoitou-a e ela gritou: 'Conheço os sofrimentos do amor'. E a morte disse: 'Abençoada sejas' e lhe deu o beijo quíntuplo, dizendo: 'Que possas atingir a felicidade e o conhecimento'.
E ela lhe contou todos os mistérios e eles se amaram e se tornaram um; e ela lhe ensinou todas as magias. Por isso, há três grandes eventos na vida do homem - amor, morte e renascimento no novo corpo - e a magia os controla a todos. Para realizar o amor, você deve retornar na mesma época e lugar que os entes amados e deve lembrar-se e amá-lo ou amá-la novamente. Mas, para renascer, você deve morrer e ficar pronto para um novo corpo; para morrer, você deve ter nascido; sem amor você não pode nascer e eis toda a magia."


A Deusa, ao chegar aos portais da Morte, se desfez de todos os seus trajes e suas jóias.
Ou seja, se desfez de tudo que a definia e classificava.

Retire seus trajes e suas jóias.
Dispense seu nome, sua profissão, sua ascendência e sua descendência, seus amigos, seus companheiros.
Abra mão de todas as classificações.
Retire as qualidades com que o classificam.

Fique nu diante de si mesmo e responda-me:

Quem é você?
Sem rótulos que usa para se reconhecer... quem é você?

O que vê sobre si quando não é mais mãe, pai, esposa, marido, namorada, analista de sistemas, amigo de fulano ou sicrano, professor, pintor, desenhista, administrador, advogado, detalhista, ocupado, militante, irritado, irônico, amável...


Quem é você?
Se você não se apóia nas próprias definições de si, sabe quem é?

Se não sabe, está preso ao ego.
Não transcendeu nada.

Pode estar nos portais da Morte, todo vestido, sem saber como abrir mão de sua máscara social.
Pode estar diante de si mesmo no espelho fingindo que sabe quem é.

Pode estar enganando a si mesmo.

Eu estou nos portais.
Estou olhando além deles, para o momento em que tirarei as vestes e as jóias e descobrirei quem sou.

Onde você está?



segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ancestrais


Por Ana Marques

Aprendemos a celebrar os nossos ancestrais.

Mas raramente olhamos para eles com real respeito.

Não importa se nosso avô ou avó é cristão, mulçumano ou judeu. Seja pelo tempo que viveu ou pelas experiências que teve, precisamos reconhecê-los e ouvir suas histórias.

Resgatar a ancestralidade.
Respeitá-la de verdade.

Não estou me referindo a velas no altar ou colocá-los como múmias em museus que nunca iremos visitar.

Falo de trazê-los para sua realidade.
Porque eles podem falar de onde viemos. Do que somos feitos. Quem são aqueles que abriram nosso caminho no mundo.
Eles falarão das bençãos e das maldições que carregamos.
Algumas dessas histórias podem nos ajudar a compreender e até, quem diria!, a exorcizar uns fantasmas.

Podem nos ajudar a ver quem seremos.

Porque vamos envelhecer, não se esqueçam.
Se o curso esperado seguir, vamos perder as forças e ganhar rugas. Para as mulheres, cessará a menstruação. Para os homens, mesmo com viagras e afins, o corpo não terá a mesma disposição e elasticidade.

É preciso saber envelhecer.
É preciso amar o envelhecimento da sua carne, para compreender o seu ciclo nessa vida.
É preciso amar cada dia vivido, para poder amar o fim do ciclo.
É necessário não ter situações pendentes, desejos frustrados e uma vida pela metade para que se possa apreciar a velhice.
Para que se possa ter o que ensinar na velhice.
Para que se ame as rugas, as pernas fracas, as mãos trêmulas.

Para que finalmente se entenda que a beleza fenece porque ela também faz parte de um ciclo. E existe um ciclo onde a beleza está na profundidade e não na superfície. Está na tranquilidade e não no desespero. Está na história que se conta e não apenas na que se vive.

Vivam intensamente.
Envelheçam serenamente.
Amem e ouçam os idosos que podem lhe ensinar tanto hoje.

domingo, 25 de outubro de 2009

Amor de Bruxa


Por Ana Marques

- Mãe! Mãe! Mãe!
A menina branquinha como a neve, de longos cabelos negros como ébano e belos lábios vermelhos como sangue, chorava sem parar e chamava pela mãe.
- Mãe! Mãe!
A mãe veio. As mães sempre vem, não é mesmo? Pegou a pequena no colo e sorriu. Acariciou os cabelos lisos da criança e ninou-a até acalmá-la. Só então perguntou:
- Minha linda, o que houve? Por que você está chorando?
A criança voltou a choramingar, dizendo entre soluços:
- Mamãe, no bosque estão contando histórias sobre a senhora, sobre mim... Falam que você é uma madrasta malvada, que me maltrata, que tenta me matar, que é vaidosa e fútil.
- Mãe... eu nem sei o que é fútil...
A menina chora mais, a mãe sorri.
- Filha, ouve sua mãe... Não vale a pena chorar pelo que você ouve por aí. Sou sua mãe, você é a minha filha... O que essas pessoas sabem do nosso amor? Da nossa cumplicidade? Das noites na frente das fogueiras? Das danças na lua cheia? Dos bolinhos assando no forno? Das maçãs carameladas em dias de festa?
- Ah... filha... as pessoas vêem apenas o que querem ver, o que compreendem. Elas não me entendem, não percebem que para ser mãe, eu não preciso ser feia ou esquecer de mim. Que para ser esposa, eu não preciso deixar de ser mulher. Não percebem que para acalentar menina tão especial como você em meu seio, eu não preciso sentir inveja ou ciúmes, porque somos diferentes e complementares. Você é a jovem cheia de energia e sem nenhuma experiência. Eu sou a mulher cheia de experiência e com a energia controlada. Um dia serei a anciã, aquela que irá te acolher nos momentos difíceis, te acalentar quando a vida te desafiar, te aconselhar quando você se sentir perdida e te respeitar pela mulher que você é assim como você me respeitará pela senhora que eu serei. Eu terei rugas e amarei cada uma delas. Você terá filhos e eu amarei cada um deles. E enquanto eu tiver forças, irei dançar nas fogueiras com você.
A mãe suspirou.
- Mas você precisa compreender que enquanto essas pessoas tiverem língua, elas falarão, e falarão o que quiserem da forma como entenderem. Elas não podem me entender porque eu não me comporto como elas, e elas também não irão te entender porque você certamente se comportará diferente dos filhos delas... Então eu sempre serei a bruxa malvada. E quando você crescer, será a sua vez.
A mãe sorriu para a menina.
- Não tenta entender tudo agora. Apenas não dê ouvidos para essas fofocas, continue brincando, buscando os amigos que você puder ter e sendo feliz apesar dos outros. Quando falarem algo, apenas ria. O riso desarma as pessoas.
E completou:
- E lembra que eu te amo.
A menina tinha parado de chorar. Mesmo sendo muito inteligente, em seus sete anos de idade não tinha maturidade para entender muito do que a mãe tinha explicado, porém tinha se acalmado. E como toda criança, queria a liberdade do quintal, as brincadeiras. As tristezas não tinham força contra sua alegria.
Porém, antes de ir, resolveu fazer uma última pergunta:
- Mamãe... por que te chamam de madrasta nessas fofocas?
A mãe riu alto.
- Ah, Branca de Neve! Porque eles simplesmente não conseguem alcançar a grandiosidade do amor de uma bruxa!

FIM

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Magia, modifica a quem?




Por Ana Marques

Antes de eu entrar no assunto, pare e pense: o que acha que é a magia?

Se acreditar em acender velas com um sopro... pense de novo.

A essência da magia é modificar a si mesmo, a sua consciência e a sua percepção da realidade.

Não é o que acontece fora que importa, mas o que acontece dentro.

Não interessa se o feitiço é para arrumar um emprego, passar num concurso ou atrair alguém.

Erroneamente associa-se a esse ato a infinita acomodação de deixar as mudanças necessárias na vida para uma série de ingredientes combinados.

Para que o feitiço se concretize, a magia precisa estar presente.
É preciso enfeitiçar...

Não ao outro: o empregador, aquele que corrigirá a prova ou o possível namorado.
É preciso enfeitiçar a si mesmo.

Abrir seu espírito para novos horizontes, para perceber aquilo que te falta para chegar aonde deseja. Para te dar clareza no seu objetivo, determinação no seu caminho.

Impregnar-se da crença no seu potencial, na sua força, na sua capacidade.
Somente quem acredita em si, no próprio poder, na sua habilidade de concentrar e direcionar a própria energia conseguirá um resultado real.

Não porque modificará as estações ou fará chover no Saara.

Porque terá a visão ampliada suficiente para enxergar o que antes eram sombras. Ouvirá claramente o que antes eram ruídos. Sentirá vivamente o que antes não passava de um arrepio. Deleitar-se-á no sabor que antes lhe escapava. Sentirá cheiros que mesmo em suas mãos não lhe chegavam aos sentidos.

Poderá perceber as oportunidades da vida.

Sua magia não terá criado essas oportunidades, mas a sua capacidade de aproveitá-las.

Transforme-se.

Faça a sua magia.